14 de março de 2012

O Estranho

Ilustração de Alessandro Gottardo


Chegara há pouco. Vinha de um sei lá de onde.
E em breve partiria.
Não trazia bagagem. Não comprara passagem.
- sabia que O breve não tem data. Simplesmente chega. Ou se vai. -


Calçados gastos. Olhos vagos.


E a curiosidade alheia o seguia como os olhos de uma criança ao deparar-se com o novo, na tentativa de perscrutar-lhe o perene divagar. Assim, personificava fantasias. Protagonizava histórias no fértil cenário que lhe impunham. Assumia identidades às quais lhe passavam ao largo.
Enquanto aos outros era o mistério, para si, se era apenas uma distração. 

Ocaso do acaso.
Já fora tantos em tantos vidas e ainda lhe era estranho. Já vivera tanto em tantos outros, mas permanecia alheio. Latente.


Um bloco de notas, que carregava displicentemente, continha o que havia de mais concreto sobre si: uma coleção de tickets de viagem - metodicamente dispostos e afixados sobre as folhas amareladas.
Era o que sabia sobre si. A única certeza que lhe era verdadeiramente real. Era um viajante.
No entanto, suas viagens não eram em nada idílicas. Mas pontuais.


Maleta. Ticket. Estação.


Não é que não sentisse prazer em distrair-se em devaneios, mas ocorria que nem sequer sabia da possibilidade de debruçar-se sobre um mundo que não lhe fosse o palpável.
Os olhos, baços, nunca foram janelas, ou fresta da alma. Apresentavam-se nada mais que "um órgão disposto em par, em forma de globo, constituído pela esclerótica, coroide e retina, humores aquoso e vítreo, e cristalino". Mas eram bons. Saudáveis. Nunca um empecilho para quaisquer necessidades que viessem a lhe exigir o mais alto requinte da visão. No entanto, quase que paradoxalmente, lhe era atribuída - aos poucos que ousavam aproximar-se - uma estreiteza de visão.
Não que fosse desagradável, ou arredio, mas suas constantes andanças, de 'um sei lá' pra outro 'não sei onde', lhe impossibilitava a construção de laços e tornara-lhe, o que poderíamos chamar de tímido. Respondia sempre com bastante gentileza aos que lhe indagavam acerca de assuntos de quaisquer natureza, mas era breve. Não perdia-se em prolixidades. Não refletia além de qual seria o itinerário da próxima viagem.


Como já percebido, não era mais do que o que era.

Não era triste.

Tinha seus pesares. Tinha seus prazeres.
Doíam-lhe os atrasos, mas satisfazia-se em pores-do-sol alaranjados. E para sua sorte, pores-do-sol dificilmente se atrasam.
Aliado do tempo. Para si, as estações eram mais que períodos baseados em padrões climáticos, mas a própria personificação temporal. Por saber-se temporão, a excitação cálida diante de cada estação.
Ao que não era hoje, a possibilidade de ser, a cada nova estação.
E assim, seguia.


Maleta. Ticket. Estação. 





Naiana Carvalho




"Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu..."

Moska 





6 comentários:

  1. Perfeito... tudo tem um motivo para acontecer, mas na ânsia de coisas novas as vezes deixamos a desejar. Buscamos ser leal, pontual com nossos compromissos e assim muitos momentos acontecem sem ao menos dar-nos conta de tal situação.

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